Destaque: A Knight of the Seven Kingdoms - 1x6 - The Morrow
Escrito por: Allan Veríssimo
A seguir, as quatro páginas finais do conto "O Cavaleiro Andante", que foram adaptados nesse episódio final:
“Baelor da Casa Targaryen, Príncipe de Pedra do Dragão, Mão do Rei, Protetor do Reino e herdeiro legítimo do Trono de Ferro dos Sete Reinos de Westeros, foi entregue ao fogo no pátio do Castelo de Vaufreixo, na margem norte do rio Molusqueiro. Outras grandes casas podiam escolher entre enterrar seus mortos na terra escura ou afundá-los no mar verde e frio, mas os Targaryen eram o sangue do dragão, e seu final era escrito em chamas.
Fora o melhor cavaleiro da sua época, e alguns argumentaram que ele devia partir para enfrentar as trevas com cota de malha e placa de aço, e uma espada em cada mão. No fim, no entanto, prevaleceram os desejos de seu real pai, e Daeron II tinha uma natureza pacífica.
Quando Dunk passou pelo ataúde de Baelor arrastando os pés, o príncipe usava uma túnica negra de veludo com o dragão de três cabeças realçado com linha escarlate sobre o peito. Ao redor de sua garganta havia uma pesada corrente de ouro. Sua espada estava embainhada ao lado do corpo, mas ele usava um elmo, um fino elmo dourado com uma viseira aberta para que as pessoas pudessem ver seu rosto.
Valarr, o Jovem Príncipe, ficou de vigília aos pés do ataúde do pai enquanto Baelor era velado. Era uma versão mais baixa, mais magra, mais bonita do seu progenitor, sem o nariz duas vezes quebrado que fazia Baelor parecer mais humano do que régio. O cabelo de Valarr era castanho, mas atravessado por uma brilhante mecha de louro-prateado. Essa visão fez Dunk se lembrar de Aerion, mas sabia que não era justo. O cabelo de Egg crescia claro como o do irmão, e Egg era um garoto bem decente para um príncipe.
Quando parou para oferecer desajeitadas condolências, bem carregadas de agradecimentos, o Príncipe Valarr pestanejou os frios olhos azuis para ele e disse:
– Meu pai tinha apenas trinta e nove anos. Tinha qualidades para ser um grande rei, o maior desde Aegon, o Dragão. Por que os deuses o levaram e deixaram você? – Balançou a cabeça.– Vá embora, Sor Duncan. Vá embora.
Sem palavras, Dunk mancou para fora do castelo e dirigiu-se para o acampamento ao lado da lagoa verde. Não tinha resposta para Valarr. Nem para as perguntas que fazia a si mesmo.
Os meistres e o vinho fervente haviam feito seu trabalho e seu ferimento sarava de forma limpa, embora fosse ficar com uma profunda cicatriz franzida entre o braço esquerdo e o mamilo. Não conseguia olhar para o ferimento sem pensar em Baelor. Ele me salvou uma vez com sua espada e uma vez com uma palavra, apesar de já ser um homem morto quando estava parado ali. O mundo não fazia sentido quando um grande príncipe morria para que um cavaleiro andante pudesse viver. Dunk sentou-se sob o olmo e encarou sombriamente os pés.
Quando quatro guardas com a libré real apareceram em seu acampamento no final de uma tarde, Dunk teve certeza de que iam matá-lo no final das contas. Muito fraco e muito cansado para estender a mão e pegar uma espada, ficou sentado com as costas apoiadas no olmo, esperando.
– Nosso príncipe suplica o favor de uma conversa privada.
– Qual príncipe? – Dunk perguntou, cauteloso.
– Este príncipe – uma voz brusca disse antes que o capitão pudesse responder. Maekar Targaryen avançou, vindo de trás do olmo.
Dunk se levantou lentamente. O que ele quer de mim agora?
Maekar fez um gesto e os guardas desapareceram tão repentinamente quanto haviam aparecido. O príncipe o estudou por um longo momento, então deu meia-volta e se afastou até parar ao lado da lagoa, olhando o próprio reflexo na água.
– Mandei Aerion para Lys – anunciou abruptamente. – Talvez alguns anos nas Cidades Livres o mudem para melhor.
Dunk nunca estivera nas Cidades Livres, então não sabia o que responder. Estava satisfeito por Aerion ter saído dos Sete Reinos e esperava que nunca mais voltasse, mas isso não era uma coisa para dizer a um pai sobre seu filho. Ficou em silêncio.
O Príncipe Maekar virou o rosto para ele.
– Alguns homens dirão que eu pretendia matar meu irmão. Os deuses sabem que é mentira, mas ouvirei os sussurros até o dia da minha morte. E foi minha maça que deu o golpe fatal, não tenho dúvidas. Os outros únicos adversários que ele enfrentou no corpo a corpo foram os três cavaleiros da Guarda Real, cujos votos proíbem que façam qualquer outra coisa além de se defender. Então, fui eu. Estranho dizer, não me lembro do golpe que arrebentou seu crânio. É uma bênção ou uma maldição? Um pouco dos dois, acho.
Pelo jeito que olhava para Dunk, parecia que o príncipe queria uma resposta.
– Não posso dizer, Vossa Graça. – Talvez devesse odiar Maekar, mas, em vez disso, sentia uma estranha simpatia pelo homem. – Você o acertou com a maça, senhor, mas foi por mim que o Príncipe Baelor morreu. Então eu o matei tanto quanto o senhor.
– Sim – o príncipe admitiu. – Você os ouvirá sussurrar também. O rei está velho. Quando ele morrer, Valarr assumirá o Trono de Ferro no lugar de seu pai. Cada vez que uma batalha for perdida ou uma colheita der errado, os tolos dirão “Baelor não deixaria isso acontecer, mas o cavaleiro andante o matou”.
Dunk podia ver a verdade naquilo.
– Se eu não lutasse, vocês teriam cortado minha mão. E meu pé. Algumas vezes me sento sob aquela árvore e olho para meus pés e me pergunto se não podia ter dado um deles. Como meu pé pode valer mais do que a vida de um príncipe? E os outros dois também, os Humfrey, eram bons homens. – Sor Humfrey Hardyng havia sucumbido aos ferimentos na noite anterior.
– E que resposta sua árvore dá?
– Nenhuma que eu consiga escutar. Mas o velho, Sor Arlan, dizia todos os dias ao cair da noite: “Pergunto-me o que o amanhã trará”. Ele nunca soube, não mais do que eu sei. Bem, pode ser que chegue algum amanhã em que eu precise do meu pé? Em que o reino precise desse pé ainda mais do que da vida de um príncipe?
Maekar remoeu aquilo por um tempo, a boca travada sob a barba prateada que fazia seu rosto parecer tão quadrado.
– Não é nem um pouco provável – disse com dureza. – O reino tem tantos cavaleiros andantes quanto andanças, e todos eles têm pés.
– Se Vossa Graça tem uma resposta melhor, eu gostaria de ouvir.
Maekar franziu o cenho.
– Pode ser que os deuses gostem de piadas cruéis. Ou talvez não existam deuses. Talvez nada disso tenha significado algum. Eu perguntaria ao Alto Septão, mas da última vez que fui até ele, ele me disse que nenhum homem pode realmente entender as obras dos deuses. Talvez ele devesse experimentar dormir embaixo de uma árvore. – Fez uma careta. – Meu filho mais novo parece ter se ligado a você, sor. É hora de ele ser um escudeiro, mas ele me diz que não servirá a nenhum cavaleiro além de você. É um rapaz indisciplinado, como deve ter notado. Ficará com ele?
– Eu? – a boca de Dunk abriu e fechou, e abriu novamente. – Egg... Aegon, quero dizer... ele é um bom garoto, mas, Vossa Graça, sei que me honra, mas... sou só um cavaleiro andante.
– Isso pode ser mudado – Maekar falou. – Aegon vai retornar para meu castelo em Solarestival. Há um lugar para você, se desejar. Um cavaleiro da minha casa. Jure sua espada para mim e Aegon poderá ser seu escudeiro. Enquanto você o treinar, meu mestre de armas completará seu treinamento. – O príncipe lhe deu um olhar astuto. – Seu Sor Arlan fez tudo o que podia por você, mas ainda tem muito o que aprender.
– Eu sei, meu senhor. – Dunk olhou ao seu redor. Para a relva verde e os juncos, o olmo alto, as ondulações dançando pela superfície da lagoa iluminada pelo sol. Outra libélula se movia pela água, ou talvez fosse a mesma do outro dia. O que vai ser, Dunk?, perguntou a si mesmo. Libélulas ou dragões? Alguns dias antes, teria respondido imediatamente. Era tudo com o que sempre sonhara, mas agora que a perspectiva estava ao seu alcance, aquilo o assustava.
– Imediatamente antes de o Príncipe Baelor morrer, jurei ser seu homem.
– Presunçoso de sua parte – Maekar comentou. – O que ele disse?
– Que o reino precisava de bons homens.
– Isso é verdade. E o que tem?
– Aceitarei seu filho como meu escudeiro, Vossa Graça, mas não em Solarestival. Não por um ano ou dois. Ele já viu castelos suficientes, imagino. Só o aceitarei se puder levá-lo comigo para a estrada – apontou para a velha Castanha. - Ele montará meu corcel, vestirá meu manto velho e manterá minha espada afiada e minha cota de malha limpa. Dormiremos em estalagens e estábulos e, de vez em quando, nos salões de algum cavaleiro com terras ou senhor de menor importância, e talvez sob as árvores quando for necessário.
O príncipe Maekar lhe deu um olhar incrédulo.
– O julgamento abalou seu juízo, homem? Aegon é um príncipe real. O sangue do dragão. Príncipes não são feitos para dormir em valas e comer carne salgada dura. – Viu que Dunk hesitou. – O que tem medo de me dizer? Diga o que desejar, sor.
– Daeron nunca dormiu em uma vala, aposto – Dunk disse, muito baixinho. – E toda a carne que Aerion já comeu era grossa, tenra e ensanguentada, provavelmente.
Maekar Targaryen, Príncipe de Solarestival, olhou Dunk da Baixada das Pulgas por um longo tempo, a mandíbula movendo-se em silêncio sob a barba prateada. Por fim, deu meia volta e afastou-se, sem dizer uma palavra. Dunk o ouviu partir com seus homens. Quando se foram, o único som era o tênue zumbido das asas da libélula que voava rente sobre a água.
O menino chegou na manhã seguinte, no momento em que o sol nascia. Usava botas velhas, calção marrom, uma túnica de lã marrom e um manto velho de viagem.
– O senhor meu pai diz que tenho de servi-lo.
– Servi-lo, sor – Dunk o recordou. – Pode começar selando os cavalos. Castanha é sua, trate-a com gentileza. Não quero encontrá-lo montado no Trovão, a menos que eu o coloque lá.
Egg foi até as selas.
– Para onde vamos, sor?
Dunk pensou por um momento.
– Nunca estive para os lados das Montanhas Vermelhas. Gostaria de dar uma olhada em Dorne?
Egg sorriu.
– Ouvi dizer que eles têm bons espetáculos de títeres – comentou.”
(“O Cavaleiro Andante”, de George R.R. Martin)
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